sexta-feira, 9 de julho de 2010

Botafogo

Coincidências, origem da 'cavadinha' e até samba, na cidade de Loco Abreu

Amigos e parentes do jogador uruguaio contam anedotas do cidadão mais ilustre da pacata cidade da região serrana do Uruguai

Por Mariana Kneipp Minas, Uruguai


Casa Loco Abreu UruguaiA casa de Loco Abreu na cidade uruguaia de Minas
(Foto: Mariana Kneipp / Globoesporte.com)

A casa de garagem branca e pedras grafite no fim da Callejón Pbro. J. De Lucas é o endereço mais conhecido de Minas. Toda vez que o dono chega é um dia de festa na cidade que fica a 120km da capital uruguaia, Montevidéu. Adultos o cumprimentam, crianças querem autógrafos e até moças se animam, ao saber que o moreno de cabelos longos e negros voltou. O local já virou ponto turístico e, especialmente nesta época de Copa do Mundo, é a principal atração. Pena que o protagonista da inserção da região no mapa do futebol não possa ver tudo isso acontecer. Um oceano o separa da agitação em solo mineño. Na disputa pelo terceiro lugar no Mundial, Sebastián “El Loco” Abreu ainda não sabe a loucura que o espera em seu retorno após a histórica campanha da Celeste na África do Sul.

Basta apenas um passeio pela cidade de apenas 40 mil habitantes para esbarrar com diversas pessoas que conhecem Loco Abreu. O jogador do Uruguai e do Botafogo está estampado em cartazes por todos os estabelecimentos de Minas e é o principal assunto da população, que não se cansa de contar “anedotas”, como gostam de chamar as melhores histórias do atleta. Um deles é o médico-cirurgião local. Simpático, com um largo sorriso no rosto, Nino Muñoz esquece o frio de 4 graus e a chuva que insiste em cair em todo o país nos últimos dias para parar no meio da rua e revelar que a iniciação profissional do ídolo com a bola nos pés foi por acaso.

Medico Loco Abreu UruguaiO médico Nino Muñoz viu de perto o início do Loco
(Foto: Mariana Kneipp / Globoesporte.com)

- Lembro quando um representante do Defensor veio aqui para atender a um pedido do técnico. As ordens eram expressas: “Quero o Abreu de Minas”. Ao encontrar Sebastián o levou para lá. Só que não era ele quem o treinador queria. Era o Manoel Abreu, outro jogador daqui, que, por sinal, jogava melhor que todos na cidade. De qualquer forma, assim nosso Sebastián saiu daqui. Vai dizer que não teve sorte? – questionou Muñoz, lembrando que Manoel atuou pelo Defensor posteriormente.

O médico acredita que o acaso sorriu para Loco simplesmente porque “ele merecia”. De origem humilde, o uruguaio precisou começar a trabalhar cedo. Aos 12 anos já era entregador de jornais do diário “El Serrano”. Ali, o jogador não sabia, mas começava a criar uma nova profissão. Sua paixão pelos esportes despertou o interesse do diretor da publicação, Juan Carvaggio, que sugeriu: “Ei, Abreu, gostaria de escrever uma crônica de um jogo?”. A resposta do menino de apenas 14 anos foi rápida: “Agora”.

Diário El Serrano UruguaiA redação do 'El Serrano', com um poster de Forlán
(Foto: Mariana Kneipp / Globoesporte.com)

- Sebastián era aluno da minha esposa. Os pais não sabiam mais o que fazer com a agitação dele. Era muito inquieto quando criança. Por isso, encheram sua rotina de atividades. Poucos sabem, mas ele não começou no esporte com o futebol. Era melhor no vôlei e no basquete, ficava acertando a cesta em casa todos os dias. Na manhã seguinte chegava na redação contando seus acertos. Uma personalidade sempre muito alegre, espontânea. Vivia cantando samba pela redação. Já tinha um pouco de brasileiro desde então – afirmou Carvaggio, citando a participação do jogador em todos os carnavais de Minas como percussionista do principal bloco da cidade.

Uma passagem que Loco costuma contar aconteceu no “El Serrano”. Uma vez, foi designado a escrever a crônica de um jogo de basquete no qual também iria atuar. No texto, ele dizia: “O melhor jogador em quadra foi Sebastián Abreu”. A modéstia ficou de lado e a assinatura da matéria também.

Cavadinha já era ensaiada desde a época da escola

Estádio Municipal Minas UruguaiEstádio Municipal de Minas: primeiras 'cavadinhas'
(Foto: Mariana Kneipp / Globoesporte.com)

Quem vê Loco Abreu batendo pênalti com ‘cavadinha’ na Copa do Mundo, já imagina o motivo de seu apelido. Mas ninguém em Minas o chama assim. Amigos e conhecidos se negam a classificar como maluco alguém de “capacidade intelectual tão avançada”, como garante Pedro Cárceres, dono da pizzaria vizinha à casa do jogador.

- Ele é uma das pessoas mais inteligentes que já conheci. Tem uma conversa rápida, sabe o que quer da vida e consegue tudo. Não é para menos que saiu com um contrato de 2 milhões de dólares e agora vale 20 – disse, rindo, o pai de um dos amigos de infância de Loco.

Assim como o Sr. Cárceres, o tio de Abreu também aposta na sabedoria do jogador. Funcionário da Secretaria de Esportes de Minas, Ernesto cuida das instalações esportivas da cidade e lembra quando a grama rala e o campo alagado do Estádio Municipal eram cenário para os treinos do sobrinho.

Tio Loco Abreu UruguaiErnesto, tio do Loco: ciclo das 'cavadinhas' fechado
(Foto: Mariana Kneipp / Globoesporte.com)

– Quando começou a levar o futebol a sério, ele treinava todos os dias. No fim dos exercícios, tinha as brincadeiras. Sebastián sempre gostou de inventar passes e chutes. A “cavadinha” surgiu aqui em Minas. Depois de fazer na Copa América e no Campeonato Carioca, ele disse que queria fechar o ciclo na Copa. Avisou que faria se tivesse a oportunidade. O resultado está aí – concluiu Ernesto.

Quando Abreu voltar da África do Sul, será surpreendido por uma iniciativa do tio. Minas vai parar para receber seu filho mais ilustre com uma festa no estádio que o jogador deu os primeiros chutes. A expectativa para o retorno do ídolo já tomou conta da população. E todos os cidadãos garantem: será a celebração mais “loca” que a pacata cidade das serras uruguaias já viveu em toda a sua história.

Poster Loco Abreu UruguaiÍdolo local: poster preso a vitrine de uma doceria em Minas celebra a 'loucura' de seu mais célebre cidadão
(Foto: Mariana Kneipp / Globoesporte.com)

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